Gatos já são encantadores por natureza, mesmo quem não é fã dos bichanos costuma admitir que eles são charmosos. No caso dos gatos-de-pallas, não é diferente.
Você provavelmente já cruzou com ele nas redes sociais: um felino de expressão permanentemente mal-humorada, pupilas redondas e um corpo atarracado que mais parece uma almofada peluda.
Esse é o gato-de-pallas (Otocolobus manul), também chamado apenas de manul. Apesar da vontade que muitos sentem de apertá-lo, ele está longe de ser doméstico.
Explicar o que é a raça, entender o estouro de popularidade e, principalmente, desfazer o mito da domesticação são passos essenciais para proteger essa espécie.
O que é o gato-de-pallas?
O gato-de-pallas é um pequeno felino selvagem que habita estepes e montanhas da Ásia Central, em regiões que vão do Irã até a Mongólia e o oeste da China.
Seu nome científico, Otocolobus manul, significa “orelha feia”, uma injustiça com esses pets, mas que remete às suas orelhas curtas e arredondadas, posicionadas lateralmente na cabeça.
Com porte similar ao de um gato doméstico (de 2,5 kg a 4,5 kg), o manul se destaca pela pelagem extraordinariamente densa, uma das mais longas e espessas entre todos os felinos.
Essa adaptação ao frio extremo cria a silhueta “cheinha” que derrete corações, contudo esconde um corpo surpreendentemente ágil.
Seus olhos possuem pupilas redondas, diferentemente das pupilas verticais dos gatos domésticos, o que confere à sua face uma expressão quase humana e peculiar, quase cômica.
Onde vive o gato-de-pallas?
O gato-de-pallas vive nas estepes frias e nas montanhas rochosas da Ásia Central, numa faixa que vai do Irã e do Cáucaso até a Mongólia, o sul da Rússia e o oeste da China.
A espécie prefere altitudes elevadas (até cerca de 4.800 metros), áreas com vegetação rasteira e fendas nas rochas que servem de abrigo: o habitat perfeito para um predador que depende da camuflagem e da toca para sobreviver a invernos rigorosos.
O gato-de-pallas é um animal em extinção?
O gato-de-pallas não é classificado oficialmente como uma espécie “em extinção”, mas está na categoria Quase Ameaçada (Near Threatened) da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN).
Isso significa que suas populações estão em declínio e a espécie se aproxima do risco de entrar nas categorias de ameaça caso os fatores de pressão — como a destruição do habitat, o envenenamento indireto por iscas e a caça — não sejam controlados.
Pode ter gato-de-pallas no Brasil?
Não, não é permitido ter um gato-de-pallas como animal de estimação no Brasil. O manul é um felino selvagem exótico, ou seja, não pertence à fauna brasileira.
A posse de animais silvestres exóticos como pet é proibida pelo IBAMA, a menos que o animal seja adquirido de um criadouro comercial legalizado e autorizado especificamente para essa espécie.
Algo que simplesmente não existe para o gato-de-pallas no Brasil.
Mesmo que existisse, a importação esbarraria na Convenção CITES (Convenção sobre o Comércio Internacional de Espécies da Fauna e da Flora Selvagens Ameaçadas de Extinção), que controla o comércio internacional da espécie devido ao seu status de conservação.
Portanto, qualquer tentativa de adquirir um gato-de-pallas no Brasil é ilegal, configura tráfico de animais silvestres e sujeita o responsável a sanções penais e administrativas.
Por que os gatos-de-pallas ficaram populares?
O gatilho da fama global foi a internet. Fotos e vídeos de manuls circulam há mais de uma década em fóruns, redes sociais e canais de vida selvagem, mas o interesse explodiu com a estética de memes.
A “cara de bravo” constante, o jeito desconfiado e a forma desajeitada com que se movimentam sobre a neve renderam títulos como “o gato mais expressivo do mundo” e “o felino original do mau humor”.
Mas sua aparência passa uma sensação equivocada de “gato doméstico diferente”: muitos internautas, ao verem o animal pela primeira vez, assumem que se trata de uma raça exótica ou um gato híbrido, alimentando o desejo de posse.
Isso é perigoso. A popularidade, quando desacompanhada de informação, transforma o manul em alvo do tráfico de animais silvestres e incentiva a ideia de que seria um pet possível.
Por que o gato-de-pallas não pode ser domesticado?
O manul não é um gato doméstico, e 10 mil anos de evolução separam seu comportamento do de um bichano de sofá.
Instinto selvagem e comportamento solitário
Diferentemente dos gatos domésticos, que passaram por milênios de seleção natural e artificial para tolerar a presença humana, o gato-de-pallas é um predador solitário e territorialista.
Ele não desenvolveu mecanismos de sociabilidade interespecífica, ou seja, a simples aproximação humana é interpretada como ameaça.
Mesmo exemplares nascidos em cativeiro mantêm reações defensivas intensas: silvos, patadas, mordidas e estresse crônico. Não há “versão mansa”. O temperamento arredio está inscrito no DNA da espécie.
Dieta especializada e saúde frágil
Manuls se alimentam quase exclusivamente de pequenos roedores, como pikas e gerbils, caçando por emboscada.
Em cativeiro, são extremamente sensíveis a mudanças alimentares e propensos a doenças infecciosas, especialmente à toxoplasmose, que costuma ser fatal para a espécie, mesmo com tratamento veterinário avançado.
Diferentemente dos gatos domésticos, seu sistema imunológico não coevoluiu com os patógenos típicos de ambientes antrópicos. Tentar alimentá-lo com ração comum é uma sentença de morte lenta.
Conservação e legalidade
Como citamos acima, o gato-de-pallas é classificado como “Quase Ameaçado” pela IUCN. Suas populações enfrentam fragmentação de habitat, envenenamento por iscas para roedores e caça.
O comércio internacional é restrito pela CITES, e a posse como animal de estimação é proibida na maioria dos países, além de ativamente desencorajada por biólogos e conservacionistas.
Mesmo onde brechas legais existem, a manutenção exige recintos complexos, clima controlado e enriquecimento ambiental que apenas zoológicos especializados conseguem oferecer.
Portanto, quem insiste em adquirir um manul por vias ilegais não está “adotando um bichinho diferente”, está financiando o tráfico e condenando o animal a uma vida de sofrimento.
O mito da aparência “domesticável”
Há uma armadilha cognitiva em jogo: a neotenia (a conservação de traços infantis na fase adulta), o manul tem cabeça grande, corpo arredondado e olhos expressivos, características que ativam nosso instinto de cuidado.
Mas a biologia não se dobra ao nosso viés afetivo. Um panda também é fofo, e nem por isso o transformamos em animal de estimação. O mesmo princípio precisa valer para o manul.
O gato-de-pallas é uma joia das estepes asiáticas, um sobrevivente silencioso que não foi moldado para conviver conosco. Sua popularidade é um convite para que nos encantemos pela biodiversidade, mas sem romantizar a posse.
Se você ama felinos, a melhor forma de demonstrar é defendendo o direito de espécies como o manul permanecerem exatamente onde devem estar: livres, ariscos e donos da própria expressão ranzinza.